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Sexta-feira, Agosto 18

"Chiquérrimo" quer educar ricos e famosos

O livro de Glória Kalil é um manual de boas maneiras num tempo grosso

Li o livro de Glória Kalil, "Chiquérrimo", e meus olhos mudaram. Eu não sou chique, mas queria ver quem era. Botei uma bermuda amarela e saí por aí, levando uma "cachorra" pela mão, com ela se equilibrando em cima de um par de plataformas douradas, com a calça bem justinha de modo que sua bunda fosse uma espécie de terceira pessoa a nosso lado, a bundinha ali, atual jóia maior de qualquer mulher, entramos num restaurante metido a besta e resolvi mostrar que sou tão chic quanto aqueles babacas ali. Comecei dando logo um esporro no garçon que me ofereceu o menu e eu perguntei: "O que se come de bom por aqui?" E ele me disse com as narinas pálidas: "De tudo, senhor". "Ah, tem de tudo? Então me traz rã com bertalha!", berrei olhando para os lados, e vários senhores chiques desviaram os olhos, mas a minha "cachorra" riu bem alto, para alegria dos chics que puderam olhar sua bundinha mais calmamente. Aí, eu fiquei meio invocado e já iamos começar a discutir a relação, quando o meu celular tocou. Claro que era o Zé da Ilha que começou a me encher o saco e eu então berrei, para que todos ouvissem: "Dinheiro, meu filho, não me falta... graças a Deus, agora que vendi minha casa lotérica eu quero é ser chic!" Eu era o escândalo do restaurante. De propósito, pedi logo champagne e caviar e minha "cachorra" chegou a cantar a música do Zeca Pagodinho: “vocês sabem o que é caviar, nunca vi nem comi eu só ouço falar!”. Aí, eu fiquei olhando a turma ali daquele boteco chic. Quem disse que eles eram mais chiques do que eu? Eu nasci na "perifa" e continuo lá, mas dava para ver a caretice dos mauricinhos em volta.

Notei que ninguém prestava atenção em ninguém. Vi que o principal problema dos chics falsos é que eles não vêem ninguém a não ser eles mesmos, e como ninguém vê ninguém, era aquela solidão...

Afinal pensei: o que é ser chiquérrimo? Na dúvida voltei para a "perifa", pro boteco do Zé da Ilha. Lá tem pagode, tem até crime, mas há uma educação pobre, uma delicadeza popular que não vi na cidade. Entendi o que Glória Kalil diz no livro dela: Chiquérrimo é aquele sujeito que respeita os outros, que valoriza a amizade, o amor, a beleza, que quer ser amado, mas não força a barra. Glória Kalil ensina em seus livros: equilíbrio, harmonia, um convívio respeitoso e feliz. Glória tem uma utopia: educar a burguesia. Não sei se consegue, mas seu livro nos ensina que, mal-empregada, até a elegância pode ser uma forma de violência.

Trechos de uma crônica de Arnaldo Jabor